terça-feira, 5 de março de 2019

Obsessão Sublime

O caráter obsessivo tende a ser um distúrbio psíquico incômodo e sorrateiro. O paciente, mesmo contra sua vontade, é dominado por pensamentos (imagens, palavras) que se repetem exaustivamente. Embora permaneça lúcido, é feito prisioneiro.

Porém pode haver um aspecto positivo. A obsessão sozinha, sem seu caráter patológico, é capaz de transformar alguém, assim como tudo ao seu redor. Quando uma pessoa investe sua energia e talento, dedicando-se totalmente, sem freios nem limites, a um propósito, pode chegar a patamares nunca imaginados, considerados até impossíveis.

De outro modo, como poderia haver algo em comum entre Monet, Alexander Flemming, Santos Dumont, Ana Neri, Tesla, Nadia Comaneci, Galileu, Anne Sullivan, Beethoven, Gandhi e Aristóteles?

Entre estes (e outros grandes nomes não citados, mas não menos merecedores) há a energia empregada; eram e são pessoas que não se dispunham a realizar algo, usando as sobras de suas energias e tempo. Não se dedicavam apenas quando estavam com tempo livre, se estivessem sentindo-se bem ou de bom humor. A constante dedicação, a obsessão pela realização foi seu Norte. 

Ninguém nem nada, na verdade, pode vencer uma pessoa obstinada em conseguir algo através de seu talento e dedicação.

Percebemos que, observando qualquer vencedor, fica claro que nem toda obsessão tem caráter destrutivo. Utilizar essa característica como impulsor faz parte da rotina deles.

Não podemos deixar de ver  também no cinema vários exemplos disso, tanto em personagens baseados em fatos quanto os fictícios. Se Clarice Starling  de ‘O Silêncio dos Inocentes’ - 1991, não estivesse comprometida em encontrar o assassino, seu propósito de entrar para FBI, assim como seu propósito de vida, estariam comprometidos. Para isso, ela teve que entrevistar o mais assustador psicopata, o Dr. Hannibal Lecter, vencendo seus medos internos e frustrações. Mesmo separada dele por um vidro de várias polegadas, o terror que ele emanava fazia os outros maníacos que dividiam o pavilhão com ele, parecerem Pee-wee Herman de mau humor. As convicções e obstinação de Clarice iam além do dever, ultrapassavam a barreira do simples querer, desejar. Ou, em ‘O Exorcista’ - 1973, no qual o padre Damian está comprometido até os ossos com a libertação de Regan, sem nunca abandonar seu posto, sendo capaz de sacrifício extremo pela vida dela. Ou, já no campo das biografias, como a de Steve Jobs (‘Jobs’, 2013, com Ashton Kutcher, muito bem caracterizado), na qual é retradada sua dedicação, diante da certeza de que estava trazendo o futuro para dentro dos lares. Chris Garner (interpretado por Will Smith), em ‘À Procura da Felicidade’- 2006, absolutamente focado em não só sair da miséria na qual se encontrava, mas também em ficar rico e tornar-se uma referência no mundo dos negócios. Poderíamos aqui citar uma lista imensa de filmes fictícios e biográficos que nos dariam ótimos exemplos de pessoas ou grupos, absolutamente empenhados em um objetivo.

A obsessão como impulsor e realizador, pode ser bem representada na frase de Fabiano Góes, ontoanalista:

“ Não se faz algo deslumbrante com a energia que sobra. Uma obsessão pode se tornar sublime; é a obsessão que atinge um propósito com viés transformador intenso, com contribuição para mundo. Todos os que figuram como grandes gênios da humanidade tiveram caráter obsessivo, têm conteúdo obsessivo sublimado.”

Texto de: Cecília Rivers

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