Encaixotando Helena (Boxing Helena), 1993, de Jennifer C. Lynch
Filha do diretor David Lynch, Jennifer também roteiriza este romance diferente. O protagonista Nickolas (Julian Sands) teve um pai de grande projeção social, o qual casado com uma mulher belíssima que o desprezava e que com sua conivência, mantinha relacionamentos com outros homens e também não possuía nenhum laço afetivo com o filho. Nickolas tornou-se um médico bem-sucedido, está preso emocionalmente a uma mulher, Helena (Sherilyn Fenn), com quem teve um encontro por uma noite, mas que o ignora e despreza. O médico reproduz o comportamento do pai e tenta de todas as formas seduzir Helena que o despreza cada vez mais, assim como sua mãe o fazia. É reprimido, enquanto que Helena é superior e independente. Ao sofrer um acidente de carro, ela desperta na mansão do médico, com suas pernas amputadas. A conquista da mulher amada torna-se uma obsessão; sua felicidade e existência estão vinculadas à aceitação, enquanto que a rejeição dela torna-se cada vez maior. Ele a vê como um ser inalcançável e superior que o despreza, por sua autoestima inexistente e constante súplica de afeto. Na tentativa de subjugá-la fisicamente, uma vez que emocionalmente é incapaz de conquistá-la, Nickolas amputa também seus braços para que ela aceite sua dedicação absoluta e o ame. A adoração e a nulidade em que o personagem se coloca é visível na construção da “caixa” onde ele a coloca, que na verdade é um altar, mantendo assim sua atitude de subserviência completa. Dessa forma, ele consegue imaginar-se numa posição de igualdade. Como a estátua da Vênus em sua sala, bela, porém imóvel, a amada Helena agora também imobilizada, sem vontade própria, depende dele totalmente. Porém, ele não consegue obter seu afeto. Quando o ex-namorado de Helena vai procurá-la, há um combate físico entre eles. No entanto, em vez de aceitar o socorro, Helena toma partido do sequestrador e fica claro que ela já não se enxerga da mesma forma, tendo perdido sua segurança, autoestima e sucumbido emocionalmente diante de Nickolas. Sua autoestima estava ligada à sua beleza e seu poder sobre os homens, por isso, quando o ex chega e a vê daquela forma, ela fica envergonhada, destituída de sua aparência perfeita na qual se sustentava. O médico, obcecado, tem a necessidade de dominar e submeter o objeto amado fisicamente, ao mesmo tempo em que se submete emocionalmente; como a criança que ainda busca o amor da mãe e se acovarda diante da rejeição que o aprisiona. Ficam claros os traços de complexo de Édipo assinalados por Freud, ou seja, o homem quando criança, estabelece um sentimento de desejo e amor com a figura materna e um sentimento de negação com as forças externas que limitam esse contato, geralmente a figura paterna, uma vez que a mãe divide atenção entre os dois. No filme, essa disputa aparentemente está direcionada aos amantes de sua mãe. O personagem procura obsessivamente ser aceito e amado por uma mulher que possui um comportamento semelhante ao da mãe.
Texto de: Lavínia Teixeira
