quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Encaixotando Helena, Jennifer Lynch

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Encaixotando Helena (Boxing Helena), 1993, de Jennifer C. Lynch
Filha do diretor David Lynch, Jennifer também roteiriza este romance diferente. O protagonista Nickolas (Julian Sands) teve um pai de grande projeção social, o qual casado com uma mulher belíssima que o desprezava e que com sua conivência, mantinha relacionamentos com outros homens e também não possuía nenhum laço afetivo com o filho. Nickolas tornou-se um médico bem-sucedido, está preso emocionalmente a uma mulher, Helena (Sherilyn Fenn), com quem teve um encontro por uma noite, mas que o ignora e despreza. O médico reproduz o comportamento do pai e tenta de todas as formas seduzir Helena que o despreza cada vez mais, assim como sua mãe o fazia. É reprimido, enquanto que Helena é superior e independente. Ao sofrer um acidente de carro, ela desperta na mansão do médico, com suas pernas amputadas. A conquista da mulher amada torna-se uma obsessão; sua felicidade e existência estão vinculadas à aceitação, enquanto que a rejeição dela torna-se cada vez maior. Ele a vê como um ser inalcançável e superior que o despreza, por sua autoestima inexistente e constante súplica de afeto. Na tentativa de subjugá-la fisicamente, uma vez que emocionalmente é incapaz de conquistá-la, Nickolas amputa também seus braços para que ela aceite sua dedicação absoluta e o ame. A adoração e a nulidade em que o personagem se coloca é visível na construção da “caixa” onde ele a coloca, que na verdade é um altar, mantendo assim sua atitude de subserviência completa. Dessa forma, ele consegue imaginar-se numa posição de igualdade. Como a estátua da Vênus em sua sala, bela, porém imóvel, a amada Helena agora também imobilizada, sem vontade própria, depende dele totalmente. Porém, ele não consegue obter seu afeto. Quando o ex-namorado de Helena vai procurá-la, há um combate físico entre eles. No entanto, em vez de aceitar o socorro, Helena toma partido do sequestrador e fica claro que ela já não se enxerga da mesma forma, tendo perdido sua segurança, autoestima e sucumbido emocionalmente diante de Nickolas. Sua autoestima estava ligada à sua beleza e seu poder sobre os homens, por isso, quando o ex chega e a vê daquela forma, ela fica envergonhada, destituída de sua aparência perfeita na qual se sustentava. O médico, obcecado, tem a necessidade de dominar e submeter o objeto amado fisicamente, ao mesmo tempo em que se submete  emocionalmente; como a criança que ainda busca o amor da mãe e se acovarda diante da rejeição que o aprisiona. Ficam claros os traços de complexo de Édipo assinalados por Freud, ou seja, o homem quando criança, estabelece um sentimento de desejo e amor com a figura materna e um sentimento de negação com as forças externas que limitam esse contato, geralmente a figura paterna, uma vez que a mãe divide atenção entre os dois. No filme, essa disputa aparentemente está direcionada aos amantes de sua mãe. O personagem procura obsessivamente ser aceito e amado por uma mulher que possui um comportamento semelhante ao da mãe
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Texto de: Lavínia Teixeira

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Amor e Loucura em Camille Claudel, 1988

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Nascida na França, Camille Claudel (1864 - 1943) demonstrou sua posição de vanguarda, escolhendo uma profissão incomum entre as poucas mulheres que trabalhavam na época, a escultura. Talentosa e obstinada, teve como professor ninguém menos que Auguste Rodin e não demorou para que se apaixonassem. Bem retratada no filme, a supremacia masculina da época impunha conduta puritana às mulheres, com graves punições para as que não coubessem nos moldes. Sanatórios eram a escolha das famílias para esconder da sociedade qualquer mulher alcoólatra, ou de conduta sexual considerada ‘inapropriada’. As imposições de comportamento nada importavam para algumas pessoas, especialmente as do meio artístico. A bela e jovem pupila alimentava a vaidade do mentor famoso, com admiração e magníficas obras saídas de suas orientações, assim como o romance proibido na época, pois Rodin era casado, acrescentaram ainda mais fama à ele ao mesmo tempo em que a sociedade a execrava. Os modos possessivos e obstinados dela eram sinais de sua obsessão. O objeto amado aqui, não parece ter ficado fora de alcance por imposições sociais e sim pela própria vontade, agravando na artista, o estado de obsessão. A inacessibilidade ao objeto amado é fator propulsor na obsessões amorosas. Rejeitado, o obsessivo vê-se como um mártir, tomando ações sado masoquistas que tem como objetivo reaver para si o alvo da obsessão a qualquer custo. No caso retratado, ao afastar-se de Rodin, ela o observa sem ser vista, comportamento muito comum nos obsessivos de qualquer época, que ganhou um apelido na modernidade, ‘stalkear’, um verbo não existe na nossa língua e deriva de ‘stalking’ em inglês, que significa perseguir, observar obsessivamente; muito praticado nas redes sociais atualmente. A obsessão tem como uma de suas características a perda de autocrítica, ausência de autocontrole, o que leva o obsessivo em muitos casos, a desenvolver hábitos nocivos, como vícios, falta de higiene pessoal, isolamentos, ou aparições públicas vexatórias.Naquela época poucos sanatórios possuíam profissionais capacitados para o tratamento obviamente necessário.

Texto de: Cecília Motta. 

Amor e Loucura: ‘Monsieur e Madame Adelman’, de Nicolas Bedos, 2017

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Nicolas Bedos e Doria Tillier roteirizam e atuam na obra dirigida por ele. O Victor de Bedos é o protagonista, mas o filme é claramente de Sara/Tillier. Na vida boêmia dos jovens intelectuais nos loucos anos 70, eles se encontram. Sendo ele escritor e ela formada em letras, a atração seria esperada, se não fosse a resistência inicial dele. Sara toma as rédeas da conquista, porém o machismo escoa hora discretamente hora descaradamente do começo ao fim sempre fazendo parte da piada, à vezes através de Sara. A obra enfatiza a condição da mulher do século 20, ainda se desvinculando dos ditames sociais do passado ao mesmo tempo que ainda preserva como alvo maior de vida o amor, o casamento e filhos. Fica claro que ela se fixou em conquistar única e exclusivamente aquele homem, embora pudesse ter qualquer outro, o que traduz a relevância dele para ela, para completá-la. A ambiguidade dela é retratada também no momento em que, vendo-o pela primeira vez, declara que 'sabia ser ele o homem em torno do qual seu mundo giraria'. Apesar de feminista ferrenha, fecha os olhos para as atitudes inescusáveis do marido em prol de estar com o homem que considera praticamente insubstituível. Seu perdão é dado pela necessidade de estar com ele. O egocentrismo infantil de Victor precisa de suporte, desenvolve dependência psicológica de Sara, tornando-se ela sua manipuladora. Sara é uma mistura de falsa modernidade com a necessidade de estar ao lado dele, através do que ela propõe ser ‘o bem estar da família’ e sua carreira é anulada nesse processo. O filme traz com leveza, quase todas as questões que estão abrigadas na condição feminina moderna e flerta com a ambiguidade daquela mulher que não consegue a libertação de ter no outro a realização de sua vida.


Texto de: Cecília Motta. 

Amor e Loucura em A história de Adèle H, 1975. François Truffaut

Amor e Loucura em A história de Adèle H. 

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Em 1975 o cineasta francês François Truffaut recebeu de bom grado a batuta para dirigir a versão para cinema, da biografia de Adèle Hugo, francesa, quinta filha do grande escritor francês Victor Hugo . Em ‘A História de Adèle H’, a atriz, também francesa, Isabelle Adjani, interpreta Adèle. O diretor é também um dos roteiristas, homem passional, que sempre apreciou histórias de amor trágicas. Com precisão e recursos de muita sombra e ambientes solitários, às vezes claustrofóbicos, o filme expressa a trajetória de uma jovem que gradativamente vai mergulhando sua na paixão obsessiva por um oficial francês que passou a ignorá-la. Sua baixa auto estima a conduziu a atitudes extremas, chegando a expor-se ao ridículo, tentando sempre preencher com este amor a sensação de vazio. Os casos de amor obsessivo se distinguem pela sensação de que a pessoa só será feliz e completa se alcançar o objeto idealizado, colocando-o num pedestal, crendo que a vida não vale a pena sem aquela emoção. A obsessão, para estas pessoas, é facilmente confundida com amor e a dedicação e entendem também, que o objeto do seu amor deveria apreciar e devolver os mesmos sentimentos. Muitas vezes, quem se torna obsessivo não percebe, tendo a ideia de que nada está errado, apenas ama demais e vale tudo para alcançar o objeto amado. Se seus esforços não são aceitos, sentem-se como vítimas de alguém que não as sabe apreciar, entendendo-se nobres sofredoras de um amor impossível, continuam a insistir mesmo diante de muitas recusas, causando para si e para o outro situações constrangedoras. Na obra, é notável na presença em cena dos dois personagens, a antítese que os dois representam. Uma, totalmente entregue ao outro, anulando-se, destituindo a si mesma de escolhas e, portanto, destituída de poder, ao passo que o outro percorre a trilha que mais lhe agrada, mesmo sendo de moral duvidosa. Ele coloca seus interesses em primeiro lugar, sempre escolhendo o que vai lhe trazer mais vantagens, sendo ele assim, um complemento fatal à personalidade obsessiva dela.

Texto de: Cecília Motta.