Nicolas Bedos e Doria Tillier roteirizam e atuam na obra dirigida por ele. O Victor de Bedos é o protagonista, mas o filme é claramente de Sara/Tillier. Na vida boêmia dos jovens intelectuais nos loucos anos 70, eles se encontram. Sendo ele escritor e ela formada em letras, a atração seria esperada, se não fosse a resistência inicial dele. Sara toma as rédeas da conquista, porém o machismo escoa hora discretamente hora descaradamente do começo ao fim sempre fazendo parte da piada, à vezes através de Sara. A obra enfatiza a condição da mulher do século 20, ainda se desvinculando dos ditames sociais do passado ao mesmo tempo que ainda preserva como alvo maior de vida o amor, o casamento e filhos. Fica claro que ela se fixou em conquistar única e exclusivamente aquele homem, embora pudesse ter qualquer outro, o que traduz a relevância dele para ela, para completá-la. A ambiguidade dela é retratada também no momento em que, vendo-o pela primeira vez, declara que 'sabia ser ele o homem em torno do qual seu mundo giraria'. Apesar de feminista ferrenha, fecha os olhos para as atitudes inescusáveis do marido em prol de estar com o homem que considera praticamente insubstituível. Seu perdão é dado pela necessidade de estar com ele. O egocentrismo infantil de Victor precisa de suporte, desenvolve dependência psicológica de Sara, tornando-se ela sua manipuladora. Sara é uma mistura de falsa modernidade com a necessidade de estar ao lado dele, através do que ela propõe ser ‘o bem estar da família’ e sua carreira é anulada nesse processo. O filme traz com leveza, quase todas as questões que estão abrigadas na condição feminina moderna e flerta com a ambiguidade daquela mulher que não consegue a libertação de ter no outro a realização de sua vida.
Texto de: Cecília Motta.
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